{"id":1510,"date":"2020-10-05T10:24:13","date_gmt":"2020-10-05T14:24:13","guid":{"rendered":"https:\/\/famed.ufms.br\/?p=1510"},"modified":"2020-10-05T16:43:27","modified_gmt":"2020-10-05T20:43:27","slug":"vivencia-sobre-perdas-conecta-futuros-medicos-as-familias-enlutadas-pela-covid-19-gera-comocao-e-pedido-singular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/famed.ufms.br\/en\/vivencia-sobre-perdas-conecta-futuros-medicos-as-familias-enlutadas-pela-covid-19-gera-comocao-e-pedido-singular\/","title":{"rendered":"Viv\u00eancia sobre perdas conecta futuros m\u00e9dicos \u00e0s fam\u00edlias enlutadas pela Covid-19, gera como\u00e7\u00e3o e pedido singular"},"content":{"rendered":"<p><em>Texto: Joana Silva<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que era para ser apenas mais uma atividade dos alunos do 4\u00ba ano de medicina da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande (MS), aflorou sentimentos que fizeram marejar os olhos dos futuros m\u00e9dicos. A tarefa de escrever cartas aos familiares enlutados pela Covid-19, para confort\u00e1-los, levou os jovens n\u00e3o s\u00f3 a se identificaram com suas hist\u00f3rias, mas a tocarem cora\u00e7\u00f5es e ouvidos h\u00e1 quase tr\u00eas mil quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia da UFMS. Do Norte do pa\u00eds, um familiar fez um pedido inusitado, o desejo de receber uma carta-consolo escrita pelos estudantes.<\/p>\n<p>\u201cFiz o pedido dizendo que gostaria de receber cartas\u201d, conta Alessandra Brito Bentes, 44 anos, sobrinha e irm\u00e3 afetiva de Jo\u00e3o Barreto Bentes, mais conhecido como Preto, vitimado pela Covid-19 no dia 25 de abril. Ela lembra que o pedido foi feito depois de acompanhar, por meio de uma rede social, a leitura de algumas cartas no sarau dos volunt\u00e1rios promovido pelo projeto Inumer\u00e1veis, memorial dedicado \u00e0 hist\u00f3ria de cada uma das v\u00edtimas da Covid-19.<\/p>\n<p>Naquele sarau do dia 7 de setembro, a paraense Alessandra conheceu a proposta da professora Rosimeire Aparecida Manoel Seixas, que compartilhou a hist\u00f3ria da solicita\u00e7\u00e3o para a elabora\u00e7\u00e3o de cartas aos familiares, como atividade do m\u00f3dulo de bio\u00e9tica e o fim da vida, no qual temas como a morte e o luto s\u00e3o abordados. \u201cE, para minha surpresa, a Rosi enviou mensagem pela rede social, solicitando a confirma\u00e7\u00e3o do nome de meu irm\u00e3o e pedindo para aguardar, que eu receberia a minha carta\u201d, diz a sobrinha, moradora de Santo Ant\u00f4nio do Tau\u00e1, 56km da capital (Bel\u00e9m).<\/p>\n<p>A professora explicou que a atividade tinha por proposta trabalhar o processo de comunica\u00e7\u00e3o. \u201cMuitas vezes n\u00e3o sabemos o que dizer diante da morte e como futuros m\u00e9dicos, eles deveriam fazer esse exerc\u00edcio, al\u00e9m de fazer o exerc\u00edcio de tentar se colocar no lugar do outro, considerando que em algum momento na trajet\u00f3ria profissional deles, ir\u00e3o se deparar com a morte\u201d, complementa.<\/p>\n<p>Pela avalia\u00e7\u00e3o da professora, 36 anos, com gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia, mestrado e doutorado em Sa\u00fade Coletiva, os estudantes cumpriram a tarefa. \u201cAo longo da leitura dessa atividade eu fiquei muito emocionada com a sensibilidade expressa naquelas cartas, o processo de identifica\u00e7\u00e3o desde o momento da escolha do tributo e com a forma acolhedora que eles conseguiram expressar nas palavras para aquelas fam\u00edlias. As palavras chegam onde a nossa voz e presen\u00e7a n\u00e3o poderiam alcan\u00e7ar. Os alunos realmente se conectaram com aquelas hist\u00f3rias de vida\u201d, avalia a psic\u00f3loga.<\/p>\n<p><strong>Das palavras \u00e0s l\u00e1grimas<\/strong><\/p>\n<p>A tarefa solicitada pela professora consistia na escolha de uma hist\u00f3ria-tributo sobre uma v\u00edtima da Covid-19, enviada por um familiar e publicada no memorial. Ao todo, 32 alunos participaram da atividade, mas apenas cinco cartas n\u00e3o foram encaminhadas a pedido dos alunos. \u00a0Assim, 27 cartas foram encaminhadas \u00e0s fam\u00edlias, de 14 estados brasileiros, das cinco regi\u00f5es do pa\u00eds, com v\u00edtimas na faixa et\u00e1ria entre 15 e 95 anos.<\/p>\n<p>Alessandra diz que, al\u00e9m da emo\u00e7\u00e3o o que mais chamou sua aten\u00e7\u00e3o foi como a remetente de uma das cartas, recebida tr\u00eas dias ap\u00f3s o seu pedido, sabia de tantas coisas do estado do Par\u00e1, terra do tio. N\u00e3o por acaso, a primeira carta encaminhada \u00e0 Alessandra por correio eletr\u00f4nico, no dia 9 de setembro, vinha de uma outra paraense, da estudante Giovanna Mallmann, de 20 anos, nascida em Santar\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>\u201c<\/strong>Pra mim, a experi\u00eancia de escrever as cartas foi al\u00e9m do objetivo inicial da disciplina. Mais do que trabalhar a linguagem em situa\u00e7\u00f5es de luto e morte, ao me ver diante de uma homenagem feita com tanto zelo, palavras escritas com tanto amor e saudade, tive que lidar com os meus pr\u00f3prios sentimentos primeiro. E entrei em conflito. Senti vontade de chorar, de abra\u00e7ar bem forte, de fornecer alento de alguma maneira. Me senti profundamente humana &#8211; e pequena\u201d, relata a futura m\u00e9dica, que ingressou no curso de medicina aos 16 anos.<\/p>\n<p>Giovanna, Gigi ou tantos outros apelidos herdados, conta que o exerc\u00edcio proporcionado pela professora Rosimeire lhe permitiu observar quanta nobreza h\u00e1 em dar e receber afeto, seja por meio de um abra\u00e7o ou de uma simples carta, considerada por muitas fam\u00edlias como um presente num momento em que o ritual da despedida n\u00e3o aconteceu.<\/p>\n<p>\u201cO desafio de escrever uma carta resposta despertou uma empatia visceral, dolorida e me conectou com os familiares de pessoas at\u00e9 pouco tempo, desconhecidos. Tive trocas lindas, dei e recebi carinho de &#8220;desconhecidos&#8221;, pessoas que agora, ajudaram a moldar meu caminho. O que eles nem desconfiam \u00e9 que o presente foi meu, por ter tido a oportunidade de consolar. Acredito que &#8220;pela lei natural dos encontros, eu deixo e recebo um tanto&#8221;. E recebi muito mais do que eu poderia imaginar. Seja como futura m\u00e9dica ou s\u00f3 como Giovanna, carregarei comigo a coragem de Dona Vinoca e a risada de Preto. Eles me ensinaram muito. Eles jamais ser\u00e3o um n\u00famero. Jamais ser\u00e3o esquecidos\u201d, confidencia.<\/p>\n<p>No dia 16 de setembro, Alessandra recebeu mais uma carta, desta vez da estudante Alexia Melo. \u201cPosso afirmar que ao receber as cartas, ficamos felizes e aliviados com tamanha sensibilidade. Nos sentimos acolhidos e, principalmente, abra\u00e7ados. Termino com o agradecimento que postei nas redes sociais. Obrigada, Rosi!! Seus alunos est\u00e3o de parab\u00e9ns!! Agradecemos todo o carinho recebido atrav\u00e9s das cartas da Giovanna e Alexia. Diante da pandemia, podemos refletir que o futuro \u00e9 incerto. N\u00e3o sabemos se viveremos muito. Por isso, vamos viver o HOJE! O Preto e nenhuma v\u00edtima do Covid-19 ser\u00e3o n\u00fameros\u201d, conclui Alessandra.<\/p>\n<p>O estudante Jo\u00e3o Nakamura pode experimentar sentimentos e rea\u00e7\u00f5es similares aos de sua colega de turma Giovanna. \u201cQuando li a hist\u00f3ria da Eliane de Oliveira Louren\u00e7o, instantaneamente me senti tocado. Senti na minha pr\u00f3pria pele o calor do seu abra\u00e7o, a luz do seu sorriso, a alegria contagiante, mesmo sem nunca t\u00ea-la conhecido. Senti tamb\u00e9m a dor e o vazio de ter perdido algu\u00e9m t\u00e3o pr\u00f3xima de mim que sangrei. Sangrei na alma e no corpo. Chorei ao escrever a carta aos familiares. Fiquei de luto. Senti saudades\u201d, desabafa o futuro m\u00e9dico.<\/p>\n<p>Nakamura afirma que seria um eufemismo dizer que a atividade mexeu com ele. \u201cEla me mudou. Me fez mais humano e me mostrou a realidade dolorosa que estamos enfrentando e o quanto estamos ap\u00e1ticos. Isso precisa mudar. Salvem suas Elianes. Esse trabalho me fez entender que precisamos pensar e sentir o outro. N\u00e3o quero que a hist\u00f3ria de Eliane se perca em meio a outros n\u00fameros brutos e vazios. Queria que todos pudessem entender a gravidade do momento hist\u00f3rico que estamos vivendo e se emocionassem. Que se protegessem\u201d, pede o futuro m\u00e9dico.<\/p>\n<p><strong>Projeto Inumer\u00e1veis<\/strong><\/p>\n<p>O projeto surgiu da inquieta\u00e7\u00e3o de dois idealizadores, o Edson Pavoni e o Rog\u00e9rio Oliveira em ver a sociedade tratando a pandemia como um n\u00famero. Respons\u00e1vel pelo encaminhamento das cartas \u00e0s fam\u00edlias, Rayane Urani Querubina, 31 anos, disse que viu com muita alegria a atividade proposta aos alunos do 4\u00ba ano de medicina.<\/p>\n<p>\u201cTudo aqui \u00e9 sobre as conex\u00f5es que a gente cria e foi motivo de orgulho saber que a nossa mensagem entrou em salas de aula e n\u00e3o s\u00f3 isso, mas tamb\u00e9m foi capaz de contribuir pra forma\u00e7\u00e3o de futuros m\u00e9dicos. O Inumer\u00e1veis tem nos permitido viver e ver a pandemia por diferentes perspectivas, e esse foi um lado especial. Fez a diferen\u00e7a pra gente, pros alunos, pras fam\u00edlias e pra Rosi, que foi t\u00e3o sens\u00edvel e incr\u00edvel ao propor esse exerc\u00edcio\u201d, afirma Rayane, volunt\u00e1ria do projeto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto: Joana Silva &nbsp; O que era para ser apenas mais uma atividade dos alunos do 4\u00ba ano de medicina da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande (MS), aflorou sentimentos que fizeram marejar os olhos dos futuros m\u00e9dicos. 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